Quando dizemos, «eu nunca faria isso…» sabemos que possivelmente o nunca não pode ser interpretado como um «realmente não o faria» porque não se sabe o amanhã, e no amanhã poderá estar o virús da SIDA que nos poderá afectar.

Li agora numa reportagem do PÚBLICO que «Metade dos portugueses não faz teste do VIH/SIDA por medo». Sabemos que o HIV é um virús sem cura e sabemos que hoje em dia como à anos atrás uma pessoa que tenha SIDA é encarada como uma pessoa que deve estar pelo menos a 3 metros de distância e que se estiver com vontade de espirrar que o faça de preferência bem longe. A única pergunta que me faço é: porquê ainda este tipo de atitude para uma doença que sabemos não ser assim tão fácil transmitir? 

Reparei há algum tempo numa reportagem da SIC onde uma portadora do virús do HIV afirmou que o pior não era ter o virús, mas sim ter que «viver» com ele e partilhar-lo com os seus vizinhos. A verdade é que quando estamos a apontar para alguém temos 3 dedos a apontar para nós, da mesma forma que temos vizinhos a apontar os dedos e a dizer, «eu nunca faria isto». O «eu nunca» pode ter muita força para quem o afirma, mas ao que entendo, o «eu nunca» tem muito menos força que um papél do médico que diga «HIV/SIDA positivo» e que desta forma prova que o «eu nunca» aconteceu.

O medo vem de quê? Daquilo que os vizinhos vão pensar quando souberem? Se vai ser o tema de conversa do café «como apanhou o virús»? Pessoalmente acho que o virús está – preconceituosamente – ligado a droga, prostituição e homossexualidade. E poderá partir daqui o medo de fazer o teste. Agora pensemos, será melhor viver na ignorância? Pensar desta forma é esquecer milhares de pessoas afectadas, mesmo que seja por algum destes motivos são acima de tudo seres humanos e o facto de serem por estes motivos não têm qualquer motivo para ser mais criticados, porque simplesmente não há motivo para se criticar.

Quando uma menina de 14 anos está grávida a notícia é escondida, depois quando se sabe vergonhosa e depois da criança nascer a idade nada importa e a criança é a maior felicidade para toda a família. O mesmo se passa com a SIDA, assim como existem formas de evitar, com este o problema é que por mais que passem os meses, as boas notícias é o simples facto de ‘mais um dia que estou vivo’. A vida é feita de preconceitos e cada vez mais isso acontece, mas continuar a dar-lhes motivos para eles existirem é preferir viver na ignorância. Fazer o teste não é motivo para ter medo, mas sim motivo para querer enfrentar o medo e até quem sabe, no final, a notícia pode ser feliz.

 

Texto: Andrea Rocha